O constitucionalismo feminista não é apenas sobre mulheres

23 de julho de 2026
Créditos foto: Agência Brasil

O constitucionalismo feminista é uma forma de repensar o Estado de Direito, os direitos humanos, o clima e o cuidado na América Latina.

O constitucionalismo feminista não é simplesmente um constitucionalismo adicionando mulheres. É uma forma de repensar a autoridade constitucional, a interpretação dos direitos e a prática das instituições a partir do ponto de vista daqueles e daquelas que foram historicamente excluídos da proteção constitucional.
Isso importa porque a Constituição não é apenas um texto jurídico. Ela também organiza pertencimento, autoridade, igualdade, liberdade, poder e responsabilidade. Define quais vidas aparecem como plenamente protegidas e quais permanecem às margens. Por isso, falar de constitucionalismo feminista não significa unicamente perguntar se existem direitos das mulheres na Constituição. Significa perguntar que tipo de constitucionalismo é capaz de enfrentar desigualdades estruturais.
A expressão “constitucionalismo feminista” tem se tornado cada vez mais frequente na teoria e na prática constitucional. No entanto, o seu significado muitas vezes é dado como certo, como se se tratasse simplesmente de uma interpretação sensível ao gênero ou da inclusão das mulheres em categorias constitucionais já existentes. É muito mais do que isso.
O constitucionalismo feminista propõe uma mudança de paradigma. Não oferece apenas novas respostas para velhas perguntas, mas muda as próprias perguntas. Interroga quem foi considerado sujeito constitucional, quais experiências foram tratadas como universais, quais formas de vulnerabilidade foram invisibilizadas e quais responsabilidades públicas foram deslocadas para o espaço privado.
Essa ideia não pode ser universalista. O constitucionalismo feminista não fala por todas as mulheres a partir de um único lugar, nem transforma “as mulheres” em uma categoria abstrata. Pelo contrário, a sua força reside na sua resistência à abstração. É situado, plural e interseccional. Isso implica reconhecer que o gênero se articula com raça, classe, território, deficiência, idade, sexualidade, migração, pobreza, encarceramento, trabalho de cuidado e exposição ambiental.
O constitucionalismo feminista inclui outras vulnerabilidades não porque as absorva em uma categoria genérica, mas porque oferece um método crítico para compreender como o poder opera nas instituições, nas categorias jurídicas, nas políticas públicas e na distribuição desigual de proteção. Sua ambição não é universalizar a experiência feminista, mas desestabilizar a falsa universalidade do constitucionalismo moderno.
A partir dessa perspectiva, podem ser identificadas quatro dimensões centrais do constitucionalismo feminista contemporâneo: ele é decolonial, multinível, ecologicamente situado e organizado em torno de uma ética do cuidado.

Um constitucionalismo decolonial

O constitucionalismo feminista é, em primeiro lugar, decolonial. Isso significa reconhecer que a opressão de gênero nunca operou de maneira isolada das estruturas coloniais de poder. O Estado constitucional moderno foi construído sobre exclusões que articularam sexo, raça, classe, território e conhecimento.
Por isso, não basta incluir grupos historicamente marginalizados em instituições desenhadas a partir de experiências privilegiadas. A inclusão é necessária, mas insuficiente. O desafio mais profundo é transformar as categorias, os pressupostos e as práticas institucionais que historicamente definiram quem pertence plenamente à comunidade constitucional e quem permanece invisível, periférico ou descartável.
Um constitucionalismo feminista decolonial pergunta: quais vozes são ouvidas pelas instituições? Quais corpos são protegidos? Quais territórios são sacrificados? Quais conhecimentos são reconhecidos como juridicamente relevantes? Quais experiências continuam fora da imaginação constitucional dominante?
Essa pergunta é especialmente importante na América Latina, onde as desigualdades de gênero não podem ser separadas do racismo estrutural, da desigualdade territorial, da violência institucional e das heranças coloniais que ainda organizam o acesso à cidadania.

Um constitucionalismo multinível

O constitucionalismo feminista também é multinível. As desigualdades estruturais de gênero não podem ser enfrentadas unicamente dentro das fronteiras do Estado nacional. Nas últimas décadas, muitos avanços em matéria de direitos das mulheres, igualdade e não discriminação surgiram do diálogo entre constituições nacionais e o direito internacional dos direitos humanos.
Na América Latina, o Sistema Interamericano de Direitos Humanos teve um papel decisivo nesse processo. Influenciou a compreensão constitucional da violência contra as mulheres, a autonomia reprodutiva, a participação política, a discriminação intersecional, os direitos de grupos em situação de vulnerabilidade e, mais recentemente, o cuidado e o meio ambiente.
Isso não diminui a autoridade constitucional doméstica. Pelo contrário, amplia a sua responsabilidade. O constitucionalismo feminista compreende que a proteção dos direitos opera em múltiplos níveis: constituições, tratados, cortes internacionais, movimentos sociais, políticas públicas e instituições democráticas.
Sua gramática constitucional não fica enclausurada dentro do Estado. É relacional, dialógica e transnacional.

Um constitucionalismo ecologicamente situado

O constitucionalismo feminista é, além disso, ecologicamente situado. A crise climática tornou evidente algo que o pensamento feminista e decolonial sustenta há muito tempo: a destruição ambiental e a desigualdade social estão profundamente conectadas.
A degradação ambiental não é neutra. Mulheres indígenas, afrodescendentes, rurais, periféricas, empobrecidas e responsáveis pelo cuidado cotidiano costumam ser as primeiras a vivenciar os efeitos da crise climática. A falta de água, a insegurança alimentar, os desastres ambientais, o deslocamento forçado, a precarização da saúde e a destruição dos territórios intensificam vulnerabilidades já existentes.
Por isso, a justiça ambiental e a justiça de gênero não podem ser tratadas como agendas separadas. Proteger os ecossistemas é também proteger as condições materiais da igualdade, da dignidade, da saúde, da autonomia, dos projetos de vida e da sobrevivência coletiva.
A Opinião Consultiva OC-32/25 da Corte Interamericana de Direitos Humanos, sobre emergência climática e direitos humanos, reforça essa compreensão. Confirma que a crise climática ameaça as condições concretas para o exercício dos direitos. Para o constitucionalismo feminista, isso é decisivo: não há justiça de gênero sem justiça climática, territorial e ecológica.
O constitucionalismo climático não pode permanecer neutro em relação ao gênero. Do mesmo modo, o constitucionalismo feminista não pode ignorar a interdependência ecológica. Um constitucionalismo comprometido com a justiça de gênero deve estar também comprometido com a justiça climática, porque a destruição do ambiente é também a destruição das condições que tornam possíveis a igualdade e a vida. A justiça para as mulheres exige, necessariamente, justiça para o planeta.

O cuidado como fundamento constitucional

Por fim, o constitucionalismo feminista se organiza em torno de uma ética do cuidado. O constitucionalismo moderno foi construído ao redor da imagem do indivíduo autônomo, racional e independente. Mas a vida real mostra o contrário. Todos os seres humanos somos vulneráveis, corporais, interdependentes e atravessados por relações de cuidado ao longo da vida.
O problema é que o cuidado foi historicamente tratado como algo privado, familiar, feminino e invisível. Essa invisibilização sustentou desigualdades profundas: quem cuida tem menos tempo, menos renda, menor participação política, menor reconhecimento e menor proteção social.
Por isso, o cuidado não deve ser visto apenas como uma política pública específica. Deve ser compreendido como uma questão constitucional. A ética do cuidado transforma a forma de pensar a igualdade, porque mostra que tratar a todas as pessoas da mesma maneira não corrige desigualdades de dependência e responsabilidade. Transforma a liberdade, porque ninguém é verdadeiramente autônomo sem condições materiais para viver e cuidar. Transforma a democracia, porque a participação política depende do tempo, da proteção, da renda e do apoio social.

A Opinião Consultiva OC-31/25 da Corte Interamericana, sobre o direito ao cuidado, aponta nessa direção. Sugere que o cuidado está deixando de ser entendido como um assunto privado para ser reconhecido como fundamento de sociedades democráticas. O cuidado não substitui a liberdade nem a igualdade. Revela as condições para que ambas sejam possíveis.

Uma nova imaginação constitucional

A contribuição do constitucionalismo feminista consiste em reorientar a imaginação constitucional. Convida-nos a repensar a Constituição a partir das exclusões sobre as quais foi historicamente construída: os sujeitos que deixou de reconhecer, os territórios que tornou periféricos, as dependências que tratou como privadas, os ecossistemas que considerou externos e as formas de cuidado que deixou fora da proteção pública.
Se o constitucionalismo pretende continuar sendo um projeto transformador no século XXI, não pode se limitar a acomodar gênero, raça, clima e cuidado em suas margens. Deve reconhecê-los como parte de sua própria identidade.
O constitucionalismo feminista, portanto, não é apenas uma teoria sobre mulheres. É uma forma crítica de perguntar o que a Constituição vê, o que ela deixa de ver e que tipo de sociedade ela ajuda a construir. Ao fazê-lo, não apenas amplia o constitucionalismo. Desafia seus silêncios, revisa seus pressupostos e transforma seus fundamentos.

Citação acadêmica sugerida:: Fachin, Melina Girardi. O constitucionalismo feminista não é apenas sobre mulheres.. Agenda Estado de Derecho. 2026/07/23. Disponible en:  https://agendaestadodederecho.com/o-constitucionalismo-feminista-nao-e-apenas-sobre-mulheres/

Palavras-chave: constitucionalismo feminista, Estado de Direito, direitos humanos, clima, cuidado.

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SOBRE O AUTOR
Melina Girardi Fachin

Estágio Pós-doutoral realizado na Universidade de Coimbra no Instituto de Direitos Humanos e Democracia (2019/2020). Doutora em Direito Constitucional, com ênfase em direitos humanos, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP.) Visiting researcher da Harvard Law School (2011). Mestre em Direitos Humanos pela (PUC/SP). Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente Diretora da Faculdade de Direito, Professora Associada do Curso de Graduação em Direito e docente permanente do Curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito – Mestrado e Doutorado da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Membro da Comissão Nacional e Direitos Humanos, da Comissão de Litígio Estratégico do CNDH e do Comitê Estadual de Direitos Humanos do Estado do Paraná. Com área de atuação no Direito Constitucional e Direitos Humanos.

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Es profesora ayudante e investigadora predoctoral en el Departamento de Ciencia Política y Relaciones Internacionales de la Universidad Autónoma de Madrid (UAM). Tiene un Máster en Democracia y Gobierno, y un Máster en Gobernanza y Derechos Humanos, ambos de la UAM. Es licenciada en Comunicación Social por la Universidad Central de Venezuela. Es integrante del Lab Grupo de Investigación en Innovación, Tecnología y Gestión Pública de la UAM. Su tesis doctoral aborda la relación entre género, tecnologías y sector público, con un especial énfasis en la Inteligencia Artificial. También ha publicado sobre innovación pública y colaboración entre administraciones públicas y ciudadanía. Formó parte del equipo editorial de Agenda Estado de Derecho desde 2020 hasta febrero de 2022.

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Abogada de la Universidad de Chile y Magíster en Derecho Internacional de la Universidad de Cambridge. En el ámbito profesional, se ha desempeñado en el extranjero como asistente legal en la Corte Internacional de Justicia y consultora para la International Nuremberg Principles Academy. En Chile, ha trabajado como abogada para el Comité para la Prevención de la Tortura, y actualmente se desempeña en la División de Derechos Humanos del Ministerio de Relaciones Exteriores de Chile. Asimismo, es académica de Derecho Internacional Público en la Universidad de Chile. Sus áreas de investigación incluyen el derecho internacional de los derechos humanos, la regulación de la actividad policial y su conformidad con estándares internacionales, el derecho internacional humanitario y el derecho penal internacional.

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Ex Relator Especial para la Libertad de Expresión de la Comisión Interamericana de Derechos Humanos (CIDH) hasta el 5 de octubre de 2020. Abogado y docente uruguayo egresado de la Facultad de Derecho de la Universidad de la República de Uruguay (Udelar). Actualmente es senior fellow en El Diálogo Interamericano (The Interamerican Dialogue) y consultor en libertades informativas de UNESCO y organizaciones de la sociedad civil. Se desempeña como Secretario de Relaciones Internacionales y Gobierno Abierto del Gobierno de Canelones (Uruguay).

Docente y conferenciasta en el campo de la libertad de expresión y el derecho a la información en prestigiosas universidades, entre ellas American University (Washington), Unam (México), Universidad Carlos III (España), Stanford (California), Universidad del Pacífico (Perú), UBA (Argentina) Universidad Diego Portales (Chile), Udelar (Uruguay) y Universidad de los Andes (Colombia). Periodista, columnista y colaborador asiduo en distintos medios de comunicación.

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